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O INÍCIO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO POR PRINCÍPIOS NO BRASIL E A VIDA DE CIDA MATTAR

Conheci Cida Mattar em 1988… este relato é um pouco de sua história de vida e da educação cristã, EP, no Brasil a partir de Belo Horizonte seu berço.
Por muitas vezes quis que ela mesma relatasse esta história, gravasse, escrevesse, para que houvesse fidelidade aos fatos, pois sabemos que toda narrativa “sofre” impacto do narrador, suas emoções e impressões.
Mas quase que profeticamente, como Cida sempre me cobrava que escrevesse sobre diversos assuntos relativos à educação cristã, coube a mim agora fazer este relato, perplexa ainda sob o efeito da notícia do sua morte e um sentimento de orfandade, que precisa de um tempo para se restabelecer.
Cida amou não somente a mim, amou também minha família, admirava meu marido Heron, como a um irmão, meus filhos como a filhos seus, em momentos difíceis sempre acreditou no meu papel e chamado em educação cristã.
Tudo começou em um culto de domingo quando Pr. Márcio Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, onde sou membro, convocou uma reunião, numa terça-feira à noite, em março ou abril de 1988, para pessoas da área educacional, onde alguém falaria sobre educação, e a escola que a igreja abriria.
Eu entendi que seria uma americana que dirigiria esta reunião, lembro-me que resisti em participar, mas fui. Cheguei à sala, e já havia começado a reunião, me assentei e pela aparência de Cida, alta, roupa no estilo das mulheres americanas cristãs, tive certeza que realmente era uma americana! Mas comecei a duvidar desta certeza, pois falava muito bem o português, sem sotaque algum.
Lembro-me que ela apresentou a “Visão De Uma Escola Cristã”, texto do Paul Jehle, um clássico para nós hoje. Eu, uma pedagoga, formada há 2 anos, professora de magistério, cristã, mãe de 2 filhos, confesso nunca ter pensado, ou ouvido alguém falar daquela maneira e sobre a possibilidade de uma escola genuinamente cristã, sob a responsabilidade da igreja. Como sempre digo, não precisei fazer um curso de longas horas, participar de um congresso, aquela fala de aproximadamente uma hora e meia, fez queimar meu coração, e eu cri e aceitei que era papel também da igreja o envolvimento com a área de educação regular. Eu que tinha uma formação numa universidade humanista, onde toda a responsabilidade da educação é dada ao estado, eu como professora de curso formação de professores, ensinava também desta maneira. Esta visão nova realmente caiu como uma “bomba” na minha mente e coração. Creio então na atuação e no mistério da Fé e do convencimento do Espírito Santo, pois fui convertida àquela visão instantaneamente. Foi como se um vento tempestuoso passasse sobre mim, não fazendo bagunça, mas colocando as coisas no lugar.
Ela falou sobre a possibilidade de abertura de uma pré-escola no próximo ano em nossa igreja, mas foi mais enfática, em se dispor a dar este treinamento uma vez por semana, e convidou a todos para participarem, éramos aproximadamente 30 pessoas nesta primeira reunião.
Ao final fui à frente, me apresentei e me ofereci para ajudá-la com a parte legal da autorização da escola se ela precisasse. Ela de maneira receptiva me disse que precisaria muito, pois esteve fora do Brasil por um tempo e não estava por dentro da legislação brasileira. Trocamos telefones e a partir daí nos falávamos diariamente e nos encontrávamos semanalmente no treinamento na igreja, na minha casa ou na dela.
São muitas histórias de bastidores, de lutas e conquistas… este treinamento durou 9 meses, esta sala de 30 pessoas, foi ficando cada vez menor e ao final no projeto de implantação da Escola Cristã da IBL, ficamos eu e a Cida e alguns professores que foram contratados.

Neste tempo fui conhecendo a história de Cida, ela não era membro da Lagoinha, mas da igreja Batista da Floresta. Havia feito seminário teológico logo após sua conversão, foi em seguida para os Estados Unidos com o objetivo de trabalho missionário. Ela já era pedagoga e professora concursada da prefeitura de Belo Horizonte.
Na época da sua viagem ao exterior, Cida tinha 2 anos de convertida. Ela me contava que nunca teve uma amiga evangélica, nem vizinhos, nunca ninguém havia pregado o evangelho para ela. Ela se converteu no contexto da descoberta de uma doença gravíssima renal e de uma cura sobrenatural, é tremenda a experiência que ela teve ao ser curada, ela ouviu Deus chamando-a para a vida e para um propósito específico que ela na época não sabia qual seria.
Nos Estados Unidos após várias experiências, ela conhece Paul Jehle, a escola de New Testament Christian School em Plymouth, Massachusetts, e seu coração foi convertido a esta visão, foi então discipulada por Paul Jehle, e conhece também a professora Lou An que iria caminhar com ela também aqui no Brasil.
Ela contava que pensou em ficar por lá, foi convidada por Paul Jehle para ficar na escola como professora. Mas um dia durante um desfile pela cidade de Plymouth, segurando a bandeira do Brasil, Deus lhe falou que ela deveria voltar para a sua terra, e ela ouviu: “Tenho preparado lá um grupo para ouvir a visão e te ajudar” e ela obediente retornou ao Brasil.
Quando chegou, procurou sua igreja, e várias outras falando sobre a visão de educação cristã, Principle Aprouch, ou “Enfoque por Princípios”, como chamávamos na época. Mas não conseguiu apoio nestas primeiras empreitadas, interessante é que muita dessas igrejas hoje tem escolas. Deus em seus caminhos traçou uma maneira única, Cida foi convidada por sua amiga Salvina, para ir a um aniversário, Salvina era da IBL. Neste aniversário ela foi apresentada ao Pr. Márcio Valadão, e compartilhou com ele sua experiência nos Estados Unidos, falou sobre a visão de educação cristã. E ele prontamente a convidou para falar em uma reunião pastoral semanal que acontecia na igreja. E a partir daí a visão se estabeleceu primeiramente na Lagoinha, Belo Horizonte e Brasil.
Ah…os caminhos de Deus…a implantação desta visão não foi fácil, era algo totalmente novo, Cida não falava de uma escola denominacional ou com o foco confessional como conhecíamos mais comumente, ela falava de discipulado de alunos, de professores comprometidos com uma maneira bíblica de ensinar e aprender, ela falava de princípios bíblicos, de metodologia cristã, de pesquisar, raciocinar, relacionar e raciocinar. Ensinava-nos sobre Soberania, Caráter, Individualidade, União, Semear e Colher, Autogoverno e Mordomia. Falava de formar uma geração que atuasse em suas vocações como cristãos de tempo integral.
Foi um caminho árido, com oposições, confrontações, mas com vitória certa, em 9 de fevereiro de 1989 começa a funcionar a ESCOLA CRISTÃ da IBL, com 4 turmas, e 49 alunos, dos quais dois eram meus filhos, Diego no maternal e Daniela no 3° Período.
Neste tempo, poucos sabem, Lou Ann Hurst Falls, uma professora da New Testament e amiga de Cida, estava conosco, treinando todos que iriam trabalhar na escola, bem especificamente em metodologia cristã. Ela ficou hospedada por alguns meses na casa da Cida, convivi muito com ela neste tempo, aprendi… ela falava português, o que facilitava tudo.
Em abril de 1989, a equipe do Paul Jehle, Paul Goedecke, 2 alunas, dentre outros vieram pela primeira vez ao Brasil e participaram dos 2 primeiros seminários, um no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, participei dos dois. Quanta unção e amor pelo Brasil esses irmãos demonstravam.
A pedagoga Dejanira Lopes Vieira, a nossa Deja, participou deste primeiro seminário em Belo Horizonte em 1989, e com o coração convertido a visão de educação cristã, passou a integrar a equipe da escola como a primeira supervisora pedagógica, quanta dedicação e investimento na vida dos professores e alunos, nesta época tudo era novo para nós. Tínhamos pouco material traduzido, A Cida fazia traduções, algumas coisas me lembro de ter datilografado, fazíamos cópias, muitas reuniões e intermináveis conversas.
Nesta época eu era vice-diretora pois tinha a formação em Administração Escolar, então secretariava, cuidava da parte financeira, administrativa, legal, também tirava cópias, trabalho de banco… e fazíamos o que fosse preciso, era tempo de grande semeadura, trabalho intenso e muito treinamento. Somente em 1992 é que passei a atuar na área pedagógica, que era o que eu realmente queria fazer.
Este é um relato inicial… vocês podem imaginar quantas histórias e aprendizado existem nestas entrelinhas, quantas pessoas anônimas foram importantes e valorosas nesta implantação inicial.
Hoje tenho certeza, que sem “aquele ardor e paixão inicial” nada disto teria chegado até aqui… como temos aprendido precisamos de forma e poder, e isto nós tínhamos…orávamos juntos diariamente na escola, sabíamos que estávamos em um campo de batalha, que por mais que fizéssemos tudo com excelência sem a dependência completa de Deus seria impossível. Isto para nós era muito claro!
Neste contexto eu aprendi a ser corajosa… pois não era! Estávamos indo na contramão de tudo que era considerado o “top” educacional da época. E os olhos das pessoas estavam sobre nós, para ver no que daria esta empreitada.
A Cida não falava de educação cristã e especificamente de escola cristã como algo opcional, que quem sabe poderia dar certo, não, ela tinha convicção do que Deus tinha chamado para que ela fizesse. E Ele mesmo levaria a bom termo a visão, estudamos durante os 9 meses de treinamento o livro de Neemias, tínhamos a convicção que estávamos levantando os muros da educação cristã em nosso país, e esta convicção nos fazia prosseguir. Aquele texto Educação Cristã: Preferência ou Convicção era nosso Norte.
Esta primeira escola era enfática na parceria com as famílias, atendimentos, pastoreio aconselhamento e ensino, esta ênfase família-escola creio ter sido um dos fatores do bom êxito da implantação desta primeira escola de educação por princípios no Brasil. Outro aspecto que Cida sempre compartilhava que o alvo não era uma escola “grande” ela até falava em números, 500 alunos, este era o máximo, para não perdermos a visão. A partir deste número ela sugeria outras unidades, que ensinamento precioso.
Esta história se completaria se falássemos das diversas viagens para treinamento, o encontro de Cida e Roberto Rinaldi, O CRE em São Paulo, a criação da AECEP e muita mais que não cabe neste momento. Podemos dizer que ficam para os próximos capítulos…
Mas agora que ainda estamos sob a perplexidade da ausência de Cida Mattar, quero que fique registrado como memorial eterno esta história, uma história de obediência, entrega, trabalho, zelo e fé.

Obrigada Cida Mattar!

Hélvia Alvim Freitas Brito
29 de janeiro de 2014

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