O EDUCADOR E A EDUCADORA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POR PRINCÍPIOS

Monica Pinz Alves

Mestre em Educação nas Ciências, Doutora em Teologia – ênfase em Religião e Educação, Diretora do Centro Educacional Primeiros Passos, Professora na Faculdade Batista Pioneira, integrante do Conselho da AECEP.
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Para delinear as características ou competências necessárias ao educador ou à educadora na Educação por Princípios, faz-se necessário compreender algumas definições de educador e educadora, cristão e educação. Perceber o educador e a educadora como pessoas, que possuem identidades próprias constituídas ao longo de suas histórias, leva a compreender e estabelecer o perfil na perspectiva da Educação por Princípios e de acordo com o versículo bíblico encontrado em Lucas 6.40: “Todo aquele, porém, que for bem instruído será como seu mestre. ”

De acordo com o dicionário online Aurélio, mestre é a pessoa que ensina, pessoa que sabe muito, sábio, pessoa que domina muito bem uma profissão, uma arte, uma atividade. O significado de “professor” é: aquele que ensina uma arte, uma ciência ou uma língua; e “educador” consiste em: o que ou aquele que educa. A palavra cristã, quando entendida como adjetivo, significa que professa o Cristianismo que lhe é relativo, e quando entendido como substantivo masculino significa aquele que professa a religião de Cristo. E, por fim, a palavra “educação” significa: conjunto de normas pedagógicas tendentes ao desenvolvimento do corpo e do espírito.

Ao analisar e considerar os conceitos acima, percebe-se a riqueza contida nos significados da arte da educação, principalmente quanto ao papel do/a mestre/a, professor/a, educador/a. Assim como instrução, correção e formação sugerem atitudes programadas, elaboradas e realizadas por alguém, as definições sobre os/as profissionais que fazem a educação passam várias vezes pelo termo “pessoa”. Percebe-se, então, que a educação acontece de forma relacional; passa e se concretiza através do relacionamento. Para que o processo de educação seja eficaz é imprescindível o elemento humano: a identificação, a comunicação, a relação pessoa-a-pessoa sempre levando em consideração a relação educador(a)-educando(a).

Em 2 Coríntios 3.2-3[5], lê-se:

“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações”.

O apóstolo Paulo descreve, em sua segunda carta aos Coríntios, que Deus habilitou em cada um/a para que fosse ministro/a da nova aliança; pessoas que irão compartilhar, falar aos outros sobre a aliança feita por Jesus para a salvação dos que creem. Ele comparou os corações a cartas escritas pelo Espírito Santo, tornando-os “cartas vivas”. Esse texto sugere que os educadores e as educadoras cristãos transmitam uma mensagem conforme 2 Coríntios 3:5 “não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus.”

O educador e a educadora cristãos são pessoas que educam, ensinam, na busca do conhecimento com sabedoria e excelência, evidenciando seu caráter e aplicando uma metodologia bíblica de ensino e aprendizagem assegurando a formação, a transformação e o desenvolvimento integral do educando e da educanda, preparando-os para cumprirem seus propósitos de existência de acordo com Cristo e sua Palavra.Três eixos compõem o perfil do educador ou da educadora cristãos na visão da abordagem da Educação por Princípios: identidade, chamado e dom.       

 

4.3.1. Identidade 

Toda pessoa possui uma identidade própria, ou seja, um conjunto de características físicas e psicológicas essenciais e distintivas que as identifica e ao mesmo tempo diferencia das outras. Essas características incluem passado, presente e futuro de cada um.

Segundo Howard Hendricks, o passado existe para se aprender com ele, não para se viver nele, ou seja, as vivências do passado desde a gestação, a infância, a maneira como cada um foi criado e educado; o agir de Deus em cada situação, o local, a cultura, as pessoas com quem alguém se relaciona, as crenças, os paradigmas e as experiências boas ou ruins que teve fizeram parte de sua história de vida, da própria constituição dessa pessoa.

Do ponto de vista espiritual, o educador e a educadora cristãos precisam estar resolvidos emocionalmente em relação a qualquer desequilíbrio do passado. O passado se torna, assim, uma fonte de aprendizado. Em Filipenses 3.14 o apóstolo Paulo escreve: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” Tudo o que sempre está ao redor de cada um/a colabora para a formação da identidade como pessoa: corpo, alma e espírito.

Como educador ou educadora cristãos, far-se-á uma decisão individual por Jesus. Conforme João 1.12: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” Após a decisão individual por Jesus, uma pessoa torna-se filha e filho de Deus e recebe a vida eterna, e seu espírito é vivificado. Em 2 Coríntios 5.17, Paulo afirma: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”

A redenção de cada pessoa, a entrega de sua vida a Jesus, a experiência de ter sido feita nova criatura e transbordar de Sua misericórdia possibilita vivenciar o conhecimento do Criador, o desenvolvimento da fé e o crescimento espiritual. Essa é a identidade do educador e da educadora cristãos. Quando tem uma identidade em Cristo, é levado a um viver consistente com o que aprende com Ele, revelando assim o caráter próprio.

É comum escutar afirmações como: “Dentro da escola sou educador ou educadora, ali dou exemplo, mas lá fora eu tenho o direito de viver a minha vida da forma como desejo”, ou ainda: “Olha o que este menino está fazendo, ele pode se machucar, vou chamar a professora dele porque ele não é da minha turma!” De acordo com Bill Hybels, caráter é o modo como uma pessoa age quando ninguém está olhando, caráter não é o que já se fez, mas aquilo que se é.

4.3.2 Chamado 

Em Efésios 4.11-14 lê-se o seguinte:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.

O educador e a educadora cristãos foram chamados e escolhidos por Deus para ensinarem com o objetivo de aperfeiçoar os santos e edificar o corpo de Cristo. Chama-se chamado ministerial. Sua vocação educacional é um ministério dedicado a Deus e a seus educandos e suas educandas.

Este educador e esta educadora cristãos, que aceitam e vivenciam o seu chamado, possuem caraterísticas específicas. Uma das características essenciais é o amor e a paixão por seus educandos e suas educandas e pelo processo de ensino e aprendizagem. De acordo com Hybels, é o traço de caráter mais ameaçado de extinção.

Este amor pelo próximo é expresso em palavras, gestos, atitudes de compreensão, paciência, alegria nas mais singelas conquistas e estímulo. Amor que envolve empatia, independe do rótulo estabelecido para o educandos e a educanda na escola ou em algum ano anterior ou até mesmo pela família: “Esse menino é difícil…não sei o que eu faço com ele!” Em Mateus 9.35-38 se lê sobre como Deus agia com amor para com os seus quando ele, vendo as multidões, compadeceu-se delas porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não tinham pastor.

O amor no ensino compreende envolvimento e sincronia, num movimento constante de vai e vem, como o conceito etimológico de educação sugere, expor a informação, o exemplo, a experiência e extrair o conhecimento que já está com o aprendiz, ainda que de outra forma; e o conteúdo vai se encaixar, acrescentar e interagir com o que está sendo apresentado, e assim a verdadeira aprendizagem acontecerá com quem estiver aprendendo e quem estiver ensinando, a partir do que estiver sendo ensinado. Simplificando, quando o educando e a educanda está disposto a aprender, o educador ou a educadora, de posse do conteúdo apropriado e transbordante de amor pelo seu educando ou sua educanda, possibilita a execução do ensino.

Uma segunda característica do educador e da educadora cristãos é possuir sensibilidade e discernimento. Essa característica pode ser visualizada na parábola do semeador que está em Marcos 4.3-8

Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se. Outra parte caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto. Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um.

A arte de ensinar é um desafio constante. Como na parábola do semeador, pode ser encontrada terra boa no coração dos educandos e das educandas quando se jogar as sementes, e se verá gradativamente os frutos aparecendo; mas também existem momentos de fracasso, ausência de habilidade entre outros. E é nesse momento que essa característica é importante, quando o educador ou educadora conseguem prestar atenção e perceber as dificuldades, e consequentemente incentivar os educandos e as educandas, lembrando que o aprendizado é um processo que compreende avanços e, em alguns momentos, fracassos.

O educador e a educadora cristãos precisam estar próximos de cada educando ou educanda para que possam ter discernimento, respeitando o desenvolvimento individual e não deixando de comemorar conquistas, e revertendo os fracassos. Segundo Cida Mattar, os educadores e as educadoras que marcaram a vida escolar de cada pessoa de forma positiva e agradável foram aqueles que deram não somente conteúdos profundos e aplaudiram os triunfos, mas andaram a segunda milha com ela quando estava destoando da turma, apresentando rendimento abaixo do esperado.

O educador e a educadora cristãos possuem amor pelo ensino, pela sabedoria. Aprofundam ao máximo os assuntos que ensinam e buscam melhorar sua comunicação. Conteúdos passados de uma forma superficial por falta de conhecimento do educador ou da educadora, ou até uma comunicação ineficaz geram um ensino deficiente. Em Provérbios 4.5-6 encontra-se a confirmação para tal ação por parte do educador e da educadora cristãos “adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá.”

Possuir um coração de servo e serva, saber exatamente quem é e aonde quer chegar, possuir um sentido de propósito e compromisso inabalável, além de ter amor por equipe e colegas, são mais algumas das características do educador e da educadora cristãos. Estes são desafiados a vivenciar um padrão bíblico, principalmente em seus relacionamentos, sendo assim referenciais para toda uma geração. O educador e educadora cristãos utilizam a metodologia adequada a cada aula ou conteúdo, mas têm consciência de que o amor ao educando e à educanda pode fazer muito mais do que qualquer método.

Howard Hendricks, em seu livro Ensinando para transformar vidas, apresenta três conceitos da essência da comunicação elaborada por Sócrates: ethospathos e logos.

Ethos diz respeito à credibilidade do educador, suas credenciais. O quanto as pessoas acreditam em sua integridade e competência. Ele afirma que o jeito de ser do educador e da educadora é mais importante do que o que diz ou faz, já que determina exatamente o que diz ou faz. Aquilo que é como pessoa é o fator que mais pesa na atuação. É preciso que confiem no educador e na educadora, e, quanto mais confiarem, melhor este conseguirá lhes comunicar o que deseja.

Pathos refere-se ao lado empático, o modo como o educador e a educadora desperta as emoções e os sentimentos de seus educandos e suas educandas, e logos denota o conteúdo programático, a parte lógica, pensada da comunicação, a apresentação da argumentação.

O interesse principal do educador e da educadora não deve ser apenas transmitir princípios, mas sim influenciar o seu educando e sua educanda. Além de palavras, os educandos e as educandas precisam perceber a vivência, a emoção, o sentimento do que está sendo ensinado, em suma, o que é dito precisa estar em harmonia com o que é vivenciado. Hendricks reforça que, para haver ensino eficiente, é necessário que o educador e a educadora seja uma pessoa transformada, quanto mais sua vida for transformada, mais transformações serão efetuadas nos outros por seu intermédio.

 

4.3.3 Dom 

Dom corresponde a uma dádiva, um presente, um talento natural concedido por Deus, de acordo com a sua graça. Em Romanos[25] 12.6-7 se lê: “Tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada.” Para uma melhor compreensão desse versículo bíblico, e a fim de visualizar e entender o ponto de vista bíblico, pode-se verificar a parábola descrita em Mateus 25.14-29 sobre os talentos.

A parábola relata que um homem iria se ausentar do país e chamou seus servos, lhes confiando seus bens da seguinte forma: a um deu cinco talentos, a outro, dois, e a outro, um, a cada um segundo sua própria capacidade; e então partiu. O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, saindo, abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Depois de muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles. Então, os que receberam cinco talentos e dois talentos entregaram o dobro dos talentos recebidos cada um, respectivamente, e o senhor a cada um respondeu dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor”.

Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: “Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui o que é teu”. Respondeu-lhe, porém, o senhor:

 “Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros; e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado”.

Os dons são recebidos para a edificação, não para exibição exterior de habilidades pessoais, ou seja, o auto engrandecimento. Edificação significa “crescer em profundidade e abundância no entendimento que a pessoa tem de Cristo e de todos os outros em relação com Ele e na qualidade da relação pessoal com Ele.”

Segundo Kenneth Gangel e Howard Hendricks, não se deve, portanto, presumir que todo educador e toda educadora cristãos tenham o dom espiritual de ensinar. Isso pode ou não ser verdade. Não é objetivo desta pesquisa identificar e aprofundar o estudo sobre o dom de ensinar. William McRae sugere que o processo de descobrir o dom de ensinar deve ser iniciado com oração, esclarecimento pelo estudo, indicado pelo desejo, confirmado pela habilidade e acompanhado por bênçãos. Havendo descoberto ter o dom de ensinar, o educador e a educadora são então responsáveis em desenvolver esse dom.

Apesar da compreensão de que Deus concede a graça para que alguém seja mestre, ou seja, receba o dom de ensinar, é imprescindível que invista nesse ministério, para que este possa ser desempenhado com esmero e ser aperfeiçoado a cada dia. Assim, é necessário possuir qualificação profissional formal, estar constantemente envolvido com ferramentas que possibilitem uma formação continuada e uma avaliação da prática.

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